Beleza no mundo, no homem e em Deus: a Filosofia da Arte, a sabedoria de Deus na Criação e a vida espiritual

INTRODUÇÃO


O conceito de belo é sem dúvida, de todos os conceitos que interessam o homem, o mais interessante e o mais fecundo. Um grande número de pessoas é incapaz de se dedicar ao estudo e ao conhecimento de grandes verdades especulativas, por meio de observações longas e que exigem tempo, paciência e, muitas vezes, grande capacidade de abstração. Mas até as inteligências mais simples são capazes de ver que algo é belo e de se alegrarem com isso.
Admiravelmente, e de modo quase paradoxal, o conceito de belo possui uma ligação estreita com conceitos bem altos, a saber: de verdade, de bem, de ordem, de harmonia, de perfeição.
Todas as épocas sempre se interessaram pela beleza e nossa época não foge deste interesse.
De fato, o mundo moderno é obcecado pela beleza. Todos nós somos quotidianamente atacados por uma avalanche de apelos que buscam nos convencer de que a maior preocupação dos homens deve ser a saúde e a estética.
Contraditoriamente, nunca se defendeu tanto a ruptura das regras estéticas como na arte moderna. Octavio Paz, analisando a modernidade e a arte moderna, afirma “que a modernidade é uma espécie de autodestruição criadora” (Octávio Paz, Los hijos del limo, Tajamar Editores, Santiago, 2008, pág. 13). “Apaixonada por si mesma e sempre em guerra consigo mesma, não afirma nada permanente nem se fundamenta em qualquer princípio: a negação de todos os princípios, a mudança perpétua, é o seu princípio. (…) Nossa época exaltou a juventude e seus valores com tal frenesi que fez deste culto, se não uma religião, uma superstição; entretanto, nunca se envelheceu tanto e tão rápido como agora. Nossas coleções de arte, nossas antologias de poesia e nossas bibliotecas estão cheias de estilos, movimentos, quadros, esculturas, novelas e poemas prematuramente envelhecidos” (Ibidem, págs. 15-16).
Bem diferentes eram os princípios que regiam o pensamento medieval sobre o mundo e a ordem que existe nele, sobre a beleza e sobre o modo de agir das criaturas.
A Idade Média recebeu da Antiguidade sua problemática em matéria de estética. Entretanto, ela lhe deu uma amplitude nova, integrando aos bons princípios que a filosofia antiga possuía uma visão do homem, do mundo e de Deus, própria da religião Católica. Assim, a Igreja levou a especulação estética a um nível de originalidade incontestável.
A questão do belo, assim como da verdade e do bem, encontra nos princípios de São Tomás uma resposta muito sólida e de grande rigor científico.
A finalidade deste nosso trabalho – que de modo algum se pretende exaustivo e será publicado pouco a pouco, por partes – é de estudar aqueles princípios ensinados pela Igreja e pela filosofia tomista, que permitem compreender melhor o que é a beleza e de vê-la melhor, não somente no conjunto dos seres irracionais, mas também no homem, na sua vida moral e na sua alma e, finalmente, em Deus.
“É preciso que confessemos que Deus é a própria vida em plenitude, que tudo percebe e entende; que não pode morrer, corromper-se ou mudar-se; que não é dotado de corpo, mas é espírito, sumamente poderoso, justo, belo, ótimo e o mais feliz entre todos os espíritos” (Santo Agostinho, De Trinitate, X, 4, 6).
“Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!” (Santo Agostinho, Confissões, X, 7, 38).
Expondo os princípios que se relacionam com a beleza e com a arte, bem como as relações que existem entre a arte e a moral e de que modo nós podemos atribuir beleza aos atos humanos, esperamos tornar mais clara para os leitores a sabedoria com que Deus criou todas as coisas.
Só amamos aquilo que conhecemos e, quanto mais conhecemos a criação, mais podemos conhecer e amar Aquele que a criou.
“A ciência deve ser empregada como se fosse certo andaime pelo qual se vai subindo a estrutura da caridade, que permanece para sempre, mesmo depois da destruição da ciência. Se ela é usada com um fim de caridade, é altamente útil; utilizada por si mesma sem esta finalidade, não somente é supérflua, mas também certamente perniciosa” (Santo Agostinho, Epist. LV, c. 21, 39).

 

A ORDEM DO MUNDO E A BELEZA QUE DELA DECORRE
Existem duas perfeições que, nos seres, provêm das relações que existem entre eles: são a ordem e a beleza.
1. A ordem
A ordem é definida como a disposição adequada, conveniente, de vários seres unidos em direção a um fim comum.
Assim, para haver ordem é necessário haver três coisas:

1º. Uma pluralidade de seres, que é a matéria da ordem.
Não é possível existir ordem quando existe somente um ser. Para haver ordem é preciso haver vários seres que possam ser organizados entre si.

2º. Uma disposição adequada, conveniente, o que é a forma da ordem.
Essa organização não pode ser qualquer uma, mas deve estar de acordo com as características de cada ser, com as condições de cada um. Em uma escola, por exemplo, as coisas estão bem dispostas quando os professores têm o conhecimento necessário para ensinar os alunos, possuem uma distribuição de aulas a serem dadas conforme a possibilidade que têm, os alunos comportam-se adequadamente, respeitam os professores e funcionários, não há sujeira no chão, a biblioteca possui os livros necessários ao estudo dos alunos, os alunos são punidos quando agem mal e recompensados quando agem bem, etc. No corpo há boa disposição das partes quando o coração envia sangue suficiente para os membros e órgãos, o cérebro comanda os movimentos sem impedimento, o sistema digestivo recebe a quantidade de alimento necessária ao organismo e o digere bem para ser distribuído no corpo, os rins filtram e o fígado metaboliza as substâncias tóxicas, etc. Quando existe uma boa disposição das partes, então todos reconhecem que existe ordem. Quando essa boa disposição está ausente, então dizemos que existe confusão.

3º. Um fim comum, que é o porquê das coisas serem dispostas de certo modo, e a norma segundo a qual a ordem existente é julgada e avaliada.
No corpo humano, os órgãos e membros têm uma disposição particular com a finalidade de preservar a vida do indivíduo. A ordem de um escritório visa à boa execução dos trabalhos da empresa, a sua eficiência nos negócios. No exército, os soldados são organizados de um modo próprio para vencer a guerra. Se essa finalidade é alcançada, então é porque a ordem foi bem determinada. O fim é, então, usado também como norma, como regra para avaliar se as partes de um todo foram bem ordenadas.
A ordem exige, então, uma boa disposição das partes para alcançar um fim comum a elas. Por isso somos obrigados a concluir que somente um ser inteligente pode ordenar algo. Quem não atribuísse uma causa inteligente a uma obra ordenada seria considerado um insano. Ninguém pode dizer que uma casa fora construída pelo acaso e não por um arquiteto. Um ser que coloca ordem nas coisas obrigatoriamente deve conhecer as relações que existem entre elas e dispô-las umas em relação às outras de um modo adequado para conseguir o fim desejado. Conhecer as relações entre as partes exige compreender a natureza delas, ver as influências que umas podem ter sobre as outras, saber distinguir nelas o que é causa e o que é ocasião, etc. O conhecimento da natureza das partes de um todo, o que elas são em si, das influências que podem existir de umas sobre as outras e da conveniência delas para alcançar um fim, só pode ser feito por um ser inteligente.
Na natureza encontramos muitos seres que, sem terem inteligência, realizam obras de grande ordem, que nos causam enorme admiração. Vemos aranhas que tecem teias bem eficazes para caçar insetos, peixes que lançam água pela boca para derrubar besouros que estão sobre as folhagens das árvores e comê-los quando caem no rio, lobos que fazem armadilhas em conjunto para caçar, mesmo árvores que lançam mão de métodos admiráveis para economizar água nos períodos de seca e cristais magníficos que se formam após fenômenos geológicos.
Mas esta ordem que brilha nas obras realizadas pelos seres sem inteligência deve ser referida àquele que criou todos eles, Deus, e que lhes deu um ser capaz de agir com ordem. Os seres inteligentes, Deus inclusive e com mais forte razão, podem realizar obras ordenadas não somente por si mesmos, mas também por meio de outros seres, na medida em que os dirige e os dispõe à realização de tais obras. Sem qualquer estudo prévio, os animais fazem coisas extraordinariamente inteligentes, mas sem o saber.
As abelhas, por exemplo, fazem suas colmeias com alvéolos hexagonais onde a parede de um alvéolo serve para outro alvéolo. Não há entre os alvéolos espaço perdido e a forma hexagonal é mais econômica do que se elas usassem alvéolos em forma de prisma triangular ou quadrangular. Para fechar os alvéolos elas fazem fechamentos em forma de losango. Quando o físico René-Antoine Feichant de Reaumur (1683-1757) notou que a angulação de fechamento dos alvéolos era constante, não variava, ficou intrigado. Mandou buscar alvéolos na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra, no Canadá, e até na Guiana. Todos apresentavam o losango de fechamento dos alvéolos com o mesmo ângulo. O astrônomo francês Jean-Dominique Maraldi (1709-1788) mediu com maior precisão os ângulos de fechamento dos alvéolos e viu que o ângulo menor tinha 70º 32’ e o maior tinha 109º 28’, o que tornava o alvéolo mais econômico: máximo de volume para um mínimo de material usado na sua construção.

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