Alvar Aalto e a tradição nórdica: o romantismo nacional e a sensibilidade dórica

A primeira característica essencial de interesse é a uniformidade da arquitetura careliana. Existem poucos exemplos comparáveis na Europa. É uma pura arquitetura de assentamento na floresta, em que a madeira domina em quase cem por cento, tanto como material quanto como método de ensambladura. Desde o telhado, com seu sistema maciço de barrotes até as partes móveis da construção, a madeira domina, na maioria das vezes ao natural, sem o efeito desmaterializador que uma camada de tinta lhe confere. Além disso, a madeira é frequentemente usada em proporções tão naturais quanto possível, na escala típica do material. Um vilarejo careliano dilapidado assemelha-se um pouco a uma ruina grega, onde a uniformidade do material também é um traço dominante, ainda que o mármore substitua a madeira. (…) Outra característica especial significativa é o modo como surgiu a casa careliana tanto em sua evolução histórica quanto em seus métodos de construção. Sem entrar em detalhes etnográficos, podemos concluir que o sistema interno de construção resulta de uma acomodação metódica as circunstâncias. A casa careliana é, em certo sentido, uma construção que começa com uma única célula modesta, ou com o simples embrião de um edifício, abrigo para um homem e animais, e que então, falando em termos figurativos, vai se desenvolvendo ano após ano. “A casa careliana expandida” pode, de certo modo, ser comparaada a uma formação celular biológica. A possibilidade de uma construção maior e mais completa está sempre em aberto.

Essa extraordinária capacidade de crescer e adaptar-se tem seu melhor reflexo no princípio arquitetônico fundamental da construção careliana: o fato de que o ângulo de declive do telhado não é constante.

Alvar Aalto – Architecture in Karelia, 1941.

Nesse ensaio penetrante sobre o vernáculo da casa de fazendo do leste da Finlândia. Aalto evocou, quase por acaso, as duas modalidades arquitetônicas proeminentes da segunda metade do século XIX, o Classicismo romântico e o Neogótico. Enquanto o relato de Aalto a propósito de uma forma rural nativa com sua ênfase na variação da inclinação do telhado se aproxima muito da prescrição original de Pugin acerca da retomada de um estilo medieval doméstico, sua caracterização de um vilarejo careliano detruído como uma ruina grega em madeira, e não em pedra, é uma espécie de imagem especular da tese de Auguste Choisy, para quem as métopas do Partenon não são mais que formas residuais de construção em madeira. Além de nos inteirar de sua própria consciência clássica e de seu interesse por quase todo o vernáculo primitico, esse trecho também serve para introduzir os dois temas estilísticos da tradição nórdica: o ROmantismo Nacional, que data de 1895, e a sensibilidade dórica, que surgiu na Escandinávia por volta de 1910. A carreira longa e brilhante de Aalto dificilmente pode ser apreciada sem uma referência explícita a esses temas, pois, embora ele nunca tenha tido um compromisso explícito com nenhum dles, a obra de toda sua vida refletiu uma divida constante com a tactilidade do Romantismo Nacional e com as asperezas da forma dórica. A origem dessas modalidades é importante; uma delas provém nitidamente do Neogótico, através do estilo Shingle norte-Americano de H.H. Richardson, e a outra procede do Classicismo romântico de Schinke.

 

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